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"Dark" (2017 - 2020): o começo é o fim | Análise Crítica

Dark é uma série alemã, original da Netflix. Criada por Baran bo Odar e Jantje Friese. Teve sua primeira temporada lançada no ano de 2017. Não demorou muito para chamar a atenção do público e logo se tornou uma das séries mais comentadas. Seu enredo complexo pautado no drama dos personagens, no suspense dos desaparecimentos das crianças e na ficção científica ao abordar a viagem do tempo como um elemento principal é um prato cheio para quem gosta de tramas profundas, enigmáticas e finalizadas de forma esplendorosa.

A série teve sua última temporada lançada em 2020 pelo serviço de streaming. Apesar da história complexa, intrincada, algumas vezes confusa, carregada de tramas distintas que se complementam e das diversas teorias apresentadas o seu fechamento foi muito satisfatório, pois conseguiu responder todas as questões que propôs e dar um final emocionante para os personagens, enquanto lidou com questões sociais e familiares de forma sutil e, ao mesmo tempo, muito eficaz.


A história se passa toda em Winden, uma pequena cidade da Alemanha. Acompanhamos, então, o misterioso caso de desaparecimento de algumas crianças que, no decorrer da investigação, mostram semelhanças com casos que ocorreram a 33 anos atrás. Em paralelo temos Jonas Kahnwald que enfrenta um drama particular: ter que lidar com o recente suicídio de seu pai. Os acontecimentos estão todos conectados. Em Dark, o fim é o começo. 

A obra é uma ótima experiência de descoberta das teorias, do passado, futuro, presente e de como tudo está entrelaçado em um ciclo sem fim. Os personagens são todos complexos, nunca unidimensionais. Não podemos apontar um vilão definitivo para a trama, e isso é sensacional. A forma como todos são desenvolvidos a ponto de se tornarem humanos reais, com problemas reais e comportamentos compreensíveis. Toda a fotografia, escolha de atores e trilha sonora, montagem e edição é realmente um deleite. Um exemplo de como se fazer uma série que sabe se desenvolver e quando terminar, sem prolongamentos desnecessários.

Dark (2017 - 2020) | Ficha Técnica

Criação: Baran bo Odar e Jantje Friese
Exibição: Netflix
Temporadas: 3
Episódios: 26
Prêmios: Grimme Preis de ficção para TV
Avaliação: ★★★★★

Minha recomendação é que você vá assistir sem saber de nada além do básico e que se permita descobrir o que a obra propõe ao longo das 3 temporadas.

ALERTA DE SPOILER! A partir desse ponto trarei para a análise um pouco da teoria abordada e o texto pode conter alguns pequenos spoilers que não necessariamente vão estragar a sua experiência, caso ainda não tenha visto a série. Porém, se você, assim como eu, prefere ter a experiência completa com todas as surpresas e aventurar-se sem saber o que esperar, corre pra assistir e depois vem terminar de ler a análise.

As Viagens no Tempo, a Circularidade e a Liberdade de Escolha

Apresentada em 1915 por Albert Einstein, a Teoria da Relatividade Geral oferece uma descrição do universo onde tempo e espaço não existem como entidades separadas, mas como diferentes dimensões de uma entidade única. Imaginem uma caixa onde todos os lugares e momentos coexistem juntos, sem distinção entre eles. Desta forma, presente, passado e futuro estão acontecendo ao mesmo tempo. Nada passou ou ainda está por vir. Tudo já faz, sempre fez e sempre fará parte do Universo.

"A diferença entre presente, passado e futuro é somente uma persistente ilusão"

Essa teoria é sempre abordada quando se trata de viagem no tempo. O tempo linear como o entendemos nada mais é do que a forma que nossa mente limitada consegue experimentar. Ainda segundo a teoria, o espaço-tempo é maleável e pode ser deformado pela presença de massa. A gravidade é uma delas. Um buraco de minhoca seria uma espécie de "atalho" através do espaço e do tempo. Em Dark, ele existe nas cavernas de Winden ligando os anos de 2019, 1986 e 1954.

Sendo apresentada desde o início da série, a ideia de Circularidade do Tempo - teoria não defendida por Einstein, cabe informar - também é incrementada no enredo. Por não sucederem de forma linear, o presente, passado e futuro se conectam em um círculo infinito.

Assim, podemos perceber no desenrolar da série que o livre arbítrio não existe realmente, uma vez que todas as nossas escolhas convergem para o mesmo destino pré escrito. Em um momento, Jonas tenta evitar o suicídio de seu pai. Volta ao passado e tenta conversar com ele para que desista da ideia de se matar. Michael revela então nunca ter pensado nisso. Percebemos que o responsável por implantar a ideia de suicídio na mente de seu pai foi o próprio Jonas. Neste momento, como em diversos outros, a série trabalha o conceito do Paradoxo de Bootstrap, que basicamente diz que uma coisa pode existir sem que realmente tenha sido criada.

Para lidar com os paradoxos que toda história com viagem no tempo tem, Dark utilizou-se do conceito de universos paralelos.

Multiverso e o Gato de Schrödinger

Outra teoria bastante explorada no mundo da ficção científica é a de universos múltiplos e a melhor forma de ilustrar isso é com o experimento mental proposto em 1935 pelo físico austríaco Erwin Schrödinger. Imagine um gato dentro de uma caixa com um partículas radioativas. O exercício propõe que o gato pode estar tanto vivo quanto morto, existindo então os dois universos ao mesmo tempo.

No final da segunda temporada somos apresentados a uma Martha de um universo diferente do que acompanhamos até então. A partir daí, meus queridos, é mais complexidade na trama até que tudo se esclareça.

Dark é uma experiência de completo caos, até que no último momento tudo se encaixa perfeitamente. Nunca de uma forma ruim. A série não é confusa e caótica por ser má escrita. Na realidade, é o contrário. Os conceitos são apresentados e explicados de forma bem didática, mas sem subestimar a inteligência do público. E ainda assim se mantém o mistério do início ao fim, entregando pequenas doses recompensadora de respostas para as perguntas que ela vai propondo ao longo da jornada. Acontece que entramos em uma imersão intensa o suficiente para que nos sintamos como o Jonas que acompanhamos: ao mesmo tempo que sabemos o que está acontecendo, nós não sabemos de nada. E o final é na medida certa para fazer a série ser lembrada e amada por muito tempo ainda, pois, junto com uma jornada maravilhosa, ela traz um enredo quase sem erros. Soube instigar do começo ao fim. Dark é aquela série que sempre valerá a pena ver e rever.

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