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O diabo em figura de gente, um conto de Charles Bukowski - A arte como instrumento para chocar o público.

Henry Charles Bukowski Jr foi um poeta, romancista e contista estadunidense nascido na Alemanha. Seu estilo de escrita muito obsceno e característico fascinou gerações e até os dias de hoje cultiva admiradores pelo mundo literário. Suas obras ficaram marcadas por três características básicas: teor autobiográfico, a simplicidade e o ambiente marginal onde eram vividas as suas histórias. Sexo, alcoolismo, ressacas, jogatinas e violência estão em abundancia em seus escritos. Se eu precisasse descrever Bukowski em uma única palavra era seria: sujo. E acho que isso é o que mais me fascina nele.

O primeiro livro de sua autoria que li foi "Misto Quente", publicado originalmente em 1982. Apaixonei-me de imediato. Ainda hoje é um dos meus livros favoritos de todos os tempos. Foi quando conheci - e reconheci - que a literatura pode ter diversas formas sem perder a genialidade. Assim podemos transmitir a essência do ser e tocar diversas pessoas com a mensagem proposta em nossa obra. Porém, foi um de seus contos presentes em "Crônica de um amor louco" que mais me chocou e que trago para ser discutido aqui.

"O diabo em figura de gente" é um dos últimos contos do livro de coletâneas lançado pela editora LP&M Editores e tem como tema principal um estupro de uma garotinha com idade entre 6 e 9 anos. O personagem que nos conduz durante a história é Martin Blanchard, o estuprador, de 45 anos.

Poucas coisas ao longo dessa minha jornada literária e audiovisual me chocaram tanto quanto esse conto. A forma crua, repulsiva e expositiva como o evento é descrito me deixou ao mesmo tempo enojada e perplexa. Como um artista pode se propor a explorar de forma tão violenta um assunto que exige tanto cuidado? Como ele CONSEGUE se colocar no lugar desse pedófilo e escrever um conto sob essa perspectiva? O que isso pode nos dizer sobre o artista? Qual a mensagem que ele quis passar?

Bukowski não deixou de lado o seu estilo característico ao escrever esse conto e eu sempre vi sua escrita como uma forma de protesto, mas aqui fiquei com um sentimento de violência gratuita. Talvez por conta da sensibilidade que o tema proposto demanda. Ao ver esse tipo de abordagem me senti violentada. Pensando sobre tudo isso, cheguei em uma pergunta que volta e meia paira sobre uma ou outra obra literária ou cinematográfica: qual a necessidade desse tipo de crime violento exposto de forma tão intensa? 

Quando nos deparamos com obras que inserem algum ato cruel de forma crua e explicita, questiona-se a necessidade e até mesmo a utilidade dessa abordagem. Sempre defendi que a arte pode - e deve - ser usada como instrumento para chocar o público, gerando assim uma discussão profunda sobre determinado tema. É inegável que a arte possui a capacidade de despertar sentimentos nunca antes experimentados, ou que possa nos fazer ver uma situação por um ângulo que não seria possível sem essa provocação. Podemos fazer um homem entender melhor uma situação de abuso sexual utilizando essa ferramenta, por exemplo.


"The Strange Thing About The Johnsons" (2011) é um curta que faz isso muito bem. Nessa obra, o filho abusa do pai e utiliza nele as formas de manipulação e imposição de poder e vontade que sabemos estar constantemente presentes nessas relações. Não há aqui cenas explícitas, mas o estranhamento e o implícito são muito eficazes em criar uma atmosfera que causa desconforto e permite ao espectador - principalmente ao homem e pai - sentir uma empatia que talvez não fosse possível se a cena estivesse retratada conforme o cenário costumeiro. O choque aqui é pela estranheza da situação e não por cenas explicitas, mas utilizado magistralmente como ferramenta para desencadear uma discussão sobre um tema tão sensível e necessário. Esse fato me faz crer que talvez não seja imprescindível ser explícito para chocar. Porém, o conto em questão é do Bukowski e, como já pontuei no início do texto, ser explícito é uma de suas características, talvez o âmago de sua escrita.


Por fim, ainda que eu seja completamente a favor de utilizar o choque e mesmo a violência explícita como elementos da sua obra - viva a liberdade de expressão! - deixo aqui um questionamento em forma de conclusão: vale a pena o impacto que isso pode ter em uma real vítima? 

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